06/05/2017

Teoria da História - parte 1

O objetivo desta postagem é trazer conteúdo sobre a disciplina "Teoria da História", cursado na faculdade de História da Universidade Estácio de Sá. De forma resumida, vamos a primeira parte.

Nem sempre o ofício de Historiador existiu, haviam profissionais de outros campos escrevendo história sem necessariamente ter a intenção de perpetuar seus conteúdos. O conhecimento histórico é fruto de uma produção, é construído por alguém (sempre a posteriori), não devendo ser confundido com o "passado" propriamente dito. Em outras palavras, devemos ter consciência que o que aprendemos ao estudar História foi moldado e criado por alguém, não quer dizer que, de fato, tenha ocorrido.

Nós também devemos compreender o conceito de "sensação de verdade" trazido pelas metodologias históricas eis que seria impossível demonstrar o passado exatamente como foi. A história deve ser entendida como produto de uma operação intelectual caracterizada pela subjetividade autoral.

Em Teoria da História é importante destacarmos também o conceito de Metodologia e Teoria. A Metodologia (modo de fazer) é vital para a concretização de qualquer pesquisa bem sucedida. Quando, ao ler um texto historiográfico, sentimos facilidade na interpretação, é porque o historiador que escreveu foi coerente e soube relacionar o conteúdo abordado à uma metodologia adequada. Assim, metodologia é muito importante na condução do trabalho historiográfico.

Teoria da História, Paradigmas, Metodologias, etc
Uma Teoria corresponde a uma determinada maneira de ver as coisas (visão de mundo): a palavra vem do grego que significa "teatro". Os "paradigmas" (modelos) correspondem a estas maneiras de conceber a História, ou seja, a História pode ser contada sobre diversas ópticas, cabe a nós conhecê-las.

O Materialismo Histórico, por exemplo, é um paradigma surgido a partir do século XIX e que até hoje permanece como alternativa teórica importante para o trabalho do historiador. Também temos o Positivismo (paradigma voltado exclusivamente à ciência) e o Historicismo (paradigma voltado a escrever a história por perspectivas "heroicas").

De tempos em tempos podem surgir novos paradigmas contestando os anteriores tornando assim a História um campo de confronto entre paradigmas dominantes. Mas também podem surgir para trabalharem juntos, um complementando o outro. A História não é uma ciência exata e fixa no tempo, podendo mudar e ser reescrita ao longo dos anos.

Para Thomas Kuhn, deve haver uma ideia de matriz disciplinar que equivaleria a um mega paradigma aceito por quase todos os praticantes de um campo do saber, até que surgissem novas modificações na matriz disciplinar. Em seu livro "Razão Histórica" (1983) Jörn Rüsen adaptou o conceito de matriz disciplinar para se referir a um sistema mais amplo que envolve a prática profissional de todos os historiadores. Ela pode ser entendida como a fixadora de alguns pressupostos que dificilmente seriam objetos de transgressão ou discordância.

O "Estruturalismo Histórico" têm enfase nas estruturas sociais, achando-se capaz de elaborar uma análise científica, suprimindo o indivíduo. Para Durkheim, quem deve se preocupar com o indivíduo é a psicologia. O Marxismo, por exemplo, trata o indivíduo como parte das estruturas produtivas, a Antropologia, como parte das estruturas culturais, etc.

A Metodologia na prática historiográfica relaciona-se visceralmente com as fontes históricas. Faz parte dela o planejamento de pesquisa. Também usamos os conceitos de "Escolas Históricas" para definir os historiadores. Uma Escola deve ser entendida como uma corrente de pensamento: o conceito de identidade comum é necessário para a sua determinação. Ela pode conter dentro de si uma certa diversidade de posicionamentos teóricos e tendências metodológicas, mas ainda sim é necessária a identidade comum.

A Escola dos Annales, por exemplo, foi um movimento intelectual francês em 1929 que reuniu historiadores em prol da criação de uma revista que perdura até os dias de hoje. Tinha inspiração estruturalista e desenvolveu o modelo de "História Social". Criticavam o historicismo e se definiam como "Nova História". No entanto, na década de 1970 houve uma grande crise nos modelos estruturalistas e as guerras do início do século XX fizeram com que os homens desacreditassem na ciência como algo 100% positivo (sim, estes fatos relacionam-se diretamente).

Desde que a História começou a postular status de ciência não cessou de se tornar cada vez mais complexa, a variedade de paradigmas demonstra isto facilmente. Na passagem do século XVIII ao século XIX incrementou-se a chamada "crítica documental", que é a orientação aos historiadores de como abordar suas fontes históricas, bem como usá-las. No século XIX a predominância das fontes textuais foi deixando espaço para novas maneiras de investigação e pesquisa. Registros informais, resíduos, etc também passaram a ser considerados fontes históricas.

Além dos estudos das fontes históricas, passou haver uma relação com outros campos do saber, como a literatura, economia, etc. A este conceito chamamos de interdisciplinaridade e é de grande importância no estudo da História.

História Econômica e Social


Estudar a Economia está diretamente ligado ao estudo da História Social: desigualdades podem surgir, hierarquias sociais podem surgir, etc. No Antigo Regime (sociedade pré-capitalista) a economia não era diretamente ligada ao valor possuído e sim ao prestígio nobre da atividade, mas hoje em dia não é mais assim.

Segundo Karl Marx a economia não é um aspecto autônomo - ela influencia na vida e recebe influencias também. Estudar economia refere-se a produção, distribuição, circulação e consumo.

A História Serial (estruturalismo) foi desenvolvida pelos Annales e possibilitou o desenvolvimento de uma História Econômica. Prioriza séries quantitativas de documentação e é considerada uma metodologia. Deve-se haver cuidado para não cair no erro da fetichização quantitativa (quando apenas narram fatos sem pensamento crítico).

A Economia está sempre sujeita a fatores externos como guerras, epidemias, e disto chamamos de teorias exógenas - isto explica flutuações econômicas. Quando a flutuação ocorre por razões encontradas na própria economia, chamamos de teorias endógenas.

História Política/ Formas de Poder


A História Política desenvolveu-se em relação às diversas formas de poder. Ambos NÃO constituem um conceito estático, sempre variando ao longo do tempo. O poder, por exemplo, muda com o tempo, nem sempre está associado à acumulo de capital como comumente achamos.

A crise dos paradigmas estruturalistas não foi uma crise "destrutiva" no geral, pelo contrário, ela abriu um leque de novas possibilidades de uso de outros paradigmas.

Podemos identificar um dos pioneiros da história política na Grécia Antiga: Tucidides, que escreveu a Guerra do Peloponeso através do método autópsia (sem fontes, apenas por sua própria experiência).

Já nos quadros do Historicismo, a História Política serviu para a formação de um caráter nacionalista. Temos Leopold Ranke como principal representante nesse sentido. Já Michel Foucault contribuiu com análises sobre o poder em dimensões menores.

Cultura e Sociedade


A História Cultural se tornou mais evidente nas últimas décadas do séc. XX. Cultura apresenta um conceito polissêmico. Assim como Tucidides foi importante no campo da História Política na Grécia, Heródoto foi importante no campo da História Cultural. Ele era Grego porém vivia exilado e escreveu sobre a Grécia no aspecto cultural.

A História Cultural também é conhecida como "História das Mentalidades" e se encontra dentro do Estruturalismo. Ela possui a ideia de que há uma estrutura cultural em determinado contexto histórico.

A Nova História Cultural visava superar a história das mentalidades. Voltou sua abordagem pra História Política, inspirando-se em Foucault (novo conceito de poder).



Continua...

Thainá Santos

03/05/2017

Marcelo Freixo e o "esquerdomachismo"

Por mais que nós, militantes comunistas, tenhamos nossas ressalvas em relação ao casamento monogâmico tradicional, é impossível viver nos dias de hoje sem o julgo de sua influência. A gente é tão bombardeado desde pequeno pela ideia cristã-ocidental de um casamento perfeito, hetero-normativo, monogâmico, com finalidade de reprodução, que, qualquer coisa diferente disto, é considerada "putaria".

Se desenvolver neste ambiente nos faz repudiar qualquer ideia de relacionamentos abertos, poligamia, amor livre, etc. Claro que algumas pessoas mais desprendidas desses modelos convivem bem em famílias alternativas, mas ainda são poucas. Dessa maneira, a traição é um tabu (principalmente a feminina).

A ex-esposa do deputado estadual Marcelo Freixo, quem sempre voto aqui no Rio, está acusando-o de machismo por ter difamado-a diante de seus conhecidos. Dizem as más línguas que ela o traiu e com isto Freixo tem falado mal de sua pessoa.

Marcelo Freixo Acusado de Machismo pela Ex

Sinceramente? Isto é somente um desabafo de um relacionamento acabado. Não temos como saber a verdade, toda história tem dois lados. Priscilla Soares postou em sua conta do Instagram um texto bem subjetivo sem uma acusação concreta. A oposição à Freixo está se deliciando, usando disto pra atacar a esquerda e a militância feminista. Não estou defendendo-o, estou apenas constando fatos, sei que há muitos machistas na Esquerda.

Entretanto, curiosamente, Priscilla também é de esquerda, feminista assumida e presente na vida política. As pessoas que estão acusando Freixo de machismo pra manchar sua carreira são as mesmas que repudiam o feminismo e simplesmente "cagam" para acusações do tipo. São conservadores, direitosos, fãs de Bolsonaro, que sempre relativizam acusações deste tipo, passam pano pra amiguinhos machistas e sempre desconfiam de acusações de estupro, por exemplo.

Espero sinceramente que caso Freixo seja esta pessoa, pague pelo que fez e deixe de agir desta maneira. E também será uma pena ver um deputado tão atuante nesta cidade nesta situação. Mas não devemos aceitar críticas "construtivas" de quem nunca construiu nada (no caso, a direita).

Também é tenso como o feminismo pós-moderno fecha os olhos para as questões sociais mais importantes, sob um falso pretexto de sororidade.

Enfim... vamos seguir acompanhando. Eu fecho com Freixo e não é uma acusação subjetiva que mudará isto. Claro que políticos podem nos decepcionar com o tempo, mas meu apoio é honesto e sinceramente, humanos são assim, sempre sujeitos a frustrações.

Thainá Santos

13/04/2017

Não existe "MULHER DE MALANDRO"

Esses dias ocorreu uma coisa que me chamou muita atenção, foi um dos assuntos mais comentados no Facebook. Sim, estamos falando de Big Brother Brasil (o programa da Globo).

Primeiramente, se você não assiste esse programa e acha que é um desserviço ao público brasileiro, "tâmu junto", eu também não assisto e acho que não há nada de proveitoso, porém, não fico pagando de culta pra desmerecer quem assiste. As mídias tradicionais tem a obrigação de tratar assuntos sérios, mas não é todo dia que se chega do trabalho a fim de ver mais desgraça do que já vivemos: "futilidades" também existem no entretenimento e tem sua relevância. Existem muitos que criticam BBB mas não perdem uma reprise de "As Branquelas". Então gente: menos, bem menos.

Mas voltando ao assunto, quero dizer é que rolou a expulsão de um participante por agir com abuso em relação a moça com quem estava se relacionando. Além de manipula-la psicologicamente, o cara ainda agiu com força bruta para intimida-la. Um verdadeiro babaca!! E a moça que estava com ele? 

(  ) Mulher de Malandro, gosta de apanhar
(x) Uma mulher psicologicamente abalada

Esta participante se sente depende dele, chorou com sua saída, e mesmo nos momentos de crise voltava correndo para seus braços. Não sei se é tudo armação, mas isso, infelizmente, ocorre muito na vida real. Quem nunca ouviu falar de alguma mulher presa num relacionamento abusivo? Alias, quem nunca viveu um relacionamento abusivo? Não estou falando apenas de agressão física e sim de momentos difíceis que nunca acabam, aquela necessidade de estar com a pessoa mesmo sabendo que ela te faz mal, aquela culpa que carregamos e só percebemos com o passar do tempo... Isso acontece demais!

Mulher não gosta de ApanharMuitas mulheres apanham de seus companheiros e no dia seguinte voltam correndo para seus braços. Isso é ruim? Muito!! Mas nós devemos ampará-las porque mulheres nessas situações demonstram um forte abalo interior, além da baixíssima auto estima. Isto também pode acontecer com homens e, independentemente do gênero, devemos estender a mão para ajudar quem precisa.

Parem de usar a expressão: "Mulher de malandro" ou de dizer que uma mulher "gosta de apanhar" porque ninguém gosta de ser mal tratado. A verdade que as crises nos relacionamentos e na ética tem proporcionado desgaste mental a muitas pessoas, fazendo-as se afundar em relacionamentos fadados ao fracasso, ao invés de curtir suas próprias companhias. Isso não é papo de tiazona, é uma realidade cruel no mundo capitalista que vivemos 😞

A religião também colabora para que mais e mais mulheres se prendam a maridos que apenas a usam como objetos sexuais e empregadas domésticas. Quantas vezes somos incentivadas a manter um relacionamento péssimo apenas por pressão social/ religiosa? Em muitas culturas somos levadas a acreditar que fora de um casamento não somos nada. A religião e o capitalismo sempre andaram de mãos dadas a fim de desmerecer a liberdade sexual da mulher, além de criar atmosferas nocivas àquelas que decidem seguir fora da reta.

Outras pessoas ainda dizem que mulheres que apanham procuram outros parceiros com o mesmo comportamento violento. Bem, isto pode ocorrer, mas por uma junção de fatores que culminaram na primeira união. Estes homens podem ser sedutores e manipular com suas palavras de um jeito que nos fazem questionar até se a grama é verdade. Nunca duvidem da capacidade de um homem de reverter situações para se isentar de culpa. Só quem já passou por isso sabe como é. Faça sua parte, já existem muitos pra julgar, seja a diferença.

Thainá Santos

12/04/2017

O Mundo não Linear

Dia destes voltei a estudar na faculdade e muita coisa mudou pra mim. Alguns sabem que iniciei a graduação em História numa faculdade convencional durante o ano passado e cada dia que passa me apaixono mais pelo curso. Por motivos trabalhistas tive que mudar de instituição e estou fazendo faculdade a distância. Ainda estou me acostumando, vamos ver no que dá. Ainda amo a História mais que tudo nesse mundo 💛

Antes do curso eu tinha acesso a um conteúdo militante de esquerda e me encantava cada dia mais por esse universo. Não me via como uma pessoa radical, mas talvez eu estivesse sendo sem perceber. Daí decidi estudar para, ao menos, ter mais convicção no que falo. Isso me trouxe uma certa insegurança e um medo de perder a naturalidade, me encher de academicismo, enfim... Mas ainda sim decidi ir em frente e ter mais cautela, porque não quero deixar registrado coisas mal feitas, sem fontes, sem segurança.

Quando criei esse blog eu tinha em mente levar para pessoas conteúdo, cultura e militância de Esquerda. Ainda é um propósito na minha vida atingir o máximo de pessoas possíveis, mas ainda que isso não ocorra, viver num mundo com menos desigualdades já me fará mais feliz. História, Literatura, Filosofia... Todo universo das ciências humanas com quem gosta de conversar é minha meta para este blog também. Se você curte, chega mais!!

A questão é que: Se eu amo as ciências Humanas, por que exigir uma atitude radical e exata? Estava sendo incoerente. Eu me posicionei contra os "isentões" durante muito tempo e ainda tenho uma certa aversão com quem não se posiciona (o famoso: não sou de direita nem de esquerda). Mas pensando racionalmente, estas pessoas que estão certas. Reparem só como nós nos portamos ao estar perto de pessoas contrárias a nossas ideologias mas que temos apreço: nos portamos como isentões. A vontade de estar perto daquela pessoa querida + a educação que papai e mamãe nos deu nos faz agir como isentões e não há mal nenhum nisto, não se culpe. É bem melhor ser assim que enfiar algo goela abaixo, afastando as pessoas.

Não podemos apoiar uma ideologia em 100% de sua natureza sem questioná-la, isso é burrice. Sempre questione e tente não ser radical, estou praticando isto como exercício diariamente. Enfim, espero que esta postagem deixe claro os objetivos do Blog, quero que saibam que, embora eu apoie a Esquerda, questiono suas ideias e convido a todos para fazer o mesmo.

Um ponto importante a se destacar é a vivência: não que ela seja tudo numa discussão, mas tem um peso imenso. Estudando sobre conflitos israelenses, por exemplo, a gente tem uma visão bem dura e concreta sobre o movimento sionista. Mas ao visitar a Palestina e outros locais no oriente médio chegamos a conclusão que nem tudo é como parece. Primeiramente: a mídia mente. Segundo: Nunca sabemos ao certo como é a vida de alguém, só a pessoa sabe exatamente o que se passa. Muito provavelmente se um dia você for a Israel, escutará versões justas dos dois lados.

Não estou defendendo o Estado de Israel mas apenas exemplificando como o mundo é não linear. Não existem santos. A faculdade de História me surpreende cada dia mais ao me ensinar como estudar e como questionar o mundo de uma maneira mais livre. Recomendo a todos!!

Thainá Santos